domingo, 30 de outubro de 2011

"north and south"

Estou lendo "Norte e Sul", da Elizabeth Gaskell. [Conhecia esta senhora porque escreveu, dois anos depois, uma biografia muito satisfatória da Charlotte (Brontë), com a permissão da mesma.] Não é a primeira vez que tento. Há alguns anos, eu e algumas pessoas de uma comunidade já esquecida do LiveJournal formamos um clube do livro e lemos alguns capítulos. Eu não fui a única que desistiu por sentir verdadeiro repúdio pelo pensamento preconceituoso da personagem principal.

Vou explicar de forma sumária. A personagem principal se chama Margaret, uma moça que se considera uma lady (i.e. que vem de uma família de pessoas ricas que nunca trabalharam na vida), cuja família mal tem dinheiro para comer, e que passa roupa e lava louça dentro de casa por não ter como pagar um funcionário. Bem, ela conhece um senhor, chamado John, cujo pai morreu quando ele era jovem, obrigando-o a sair da escola e a trabalhar em uma loja pra manter a família. Mas este senhor, no tempo presente do livro, tem uma fábrica, e é figura proeminente em sua cidade. O senhor burguês inclusive paga ao pai da tolinha aristocrata para receber aulas de Literatura e afins. E a moçoila acha por bem desprezá-lo porque ele trabalha. - Estão entendendo o raciocínio de que é melhor passar fome e "ter um nome" a trabalhar e criar uma reputação merecida? Mas não é possível, esta moça não leu Shakespeare! Já dizia o velho Bill: "What's in a name? That which we call a rose by any other name would smell as sweet".

Analisemos. O tema central do livro é o conflito de classes. Ou seja, ele trata do período após a Revolução Industrial, quando o valor de uma pessoa passava a ser o que ela tinha, e não o nome de sua família. Era natural que a aristocracia decadente lutasse contra o processo. Era natural, também, que tivesse a ajuda da Igreja Católica, tão interessada nas indulgências, que excluía a classe ascendente condenando a cobiça e o lucro. Ora, se não se pode cobiçar e nem lucrar, quem nasce sem dinheiro assim permanece. Yes, nice sheep, stay. Mas aí vocês me dirão que a Inglaterra também passou pela Reforma Protestante, Anglicanismo, bla bla bla. A Igreja Anglicana foi criada porque um rei assassino queria se casar com outra(s).* A governadora suprema desta religião é a Rainha Elisabete II. Boa sorte ao tentar ser representado por esta religião "reformada", burguês do século XIX do livro!

Atualmente, passamos por outra mudança: o valor do indivíduo não mais repousa nos bens acumulados, mas no quanto estudou. A primeira coisa que perguntamos a alguém que acabamos de conhecer é: o que você faz? "Tenho pós-doutorado em Engenharia Química". / "Oooooooooooooohhhhhh"! Mas a minha pergunta, razão do post, é a seguinte: se esta primeira mudança que eu mencionei na valorização do indivíduo acontecia há quase 2 séculos, e se já houve, inclusive, uma segunda mudança depois daquela... então por que é que eu diariamente escuto coisas como as relacionadas abaixo?

- "Sabe a fulana? O marido dela é médico";
- "Sabe a fulana? Ela é casada com o filho do advogado tal";
- "Sabe a fulana? Ela é da família tal, do meu interior";
- "Fulana? Se acha muito aqui, mas o pai dela é carroceiro".

Quer dizer, é uma mistura retrógrada que ora valoriza o dinheiro, ora o nome da família, ora o nome de uma família que (e porque) tem dinheiro. E as fulanas (todas mulheres), estudadas, competentes, são sempre medidas em relação a um homem, seja o pai ou o marido que, por sua vez, é sempre medido em relação ao que tem ou ao sobrenome. Fulana trabalha em tal local: deve ser porque o marido é filho do vizinho do cachorro do primo do tio do pai de deus, himself!

Eu sei que uma das característica da boa literatura é a universalidade. Mas não precisávamos ser tão extremos a ponto de perpetuar pensamentos e comportamentos de séculos atrás pra que um livro como "North & South" continue tratando de temas atuais. =P

* Sobre o tema, ver o que Eddie Izzard, comediante inteligente e fofo, tem a dizer.

2 comentários:

azucena obelar disse...

e, no mundo superficial, as posses e nomes serao sempre referências.
te indico "fugindo do ninho", do richard bach...muito, muito, MUITO bom.
;)

thaïs disse...

Este é aquele do menino?