Bernard Shaw inicia o prefácio de "Pigmalião" (en), peça de 1916 sobre preconceito linguístico, com a seguinte frase: "É impossível que um inglês abra sua boca sem fazer com que outro inglês o odeie ou despreze". A idéia de que se é julgado pela maneira de falar é comum a "Pigmalião", à sua mais conhecida adaptação musical, "My Fair Lady" (de 1964, que elabora a frase citada na letra da canção "Why Can't the English") e ao filme "O Discurso do Rei". De fato, este faz uma referência ao personagem principal da peça, Professor Higgins, foneticista, na cena em que um médico insere bolas de vidro na boca do então Duque de York, Príncipe Albert Frederick Arthur George, da dinastia Windsor.
Tanto nos dois primeiros exemplos quanto em "O Discurso do Rei", o sotaque funciona como uma fonte de julgamento desfavorável. A cena que mais o evidencia é o teste para o teatro de Lionel Logue, aficionado de Shakespeare, que é descartado como não suficientemente majestoso por interpretar Ricardo III com seu sotaque australiano. No entanto, este é um aspecto secundário do filme, utilizado para reforçar o tema central, a gagueira. A estória é tão concentrada nisto que cenas que seriam priorizadas em outras narrativas, como a coroação, são deixadas de lado. Que informações, então, o filme nos dá sobre a gagueira?
- Gagueira ≠ insanidade (o Duque de York se refere a si como Rei George III, "o Louco"); gagueira ≠ deficiência física (a referência óbvia do filme ao Rei Ricardo III);
- Tudo o que não se deve fazer diante de uma pessoa com gagueira pode ser visto na cena em que o pai do Duque, o rei George V, o obriga a tentar ler um discurso e
- A gagueira não tem cura, mas tem tratamento, cujo objetivo é a "gagueira fluente", como vista no discurso final.
Muito do que é mostrado nas sessões de terapia se aproxima do que é feito nos dias de hoje. São realizados, no filme, testes e exercícios de reabilitação vocal (tempo máximo de fonação, redução de tensões relacionadas à fonação, instauração da respiração abdominal e projeção vocal) e técnicas de terapia da gagueira (fala mascarada, no caso do filme, com Mozart; identificação de situações de maior dificuldade, como conversar com o irmão para o Duque; inícios facilitados por prolongamentos, pausas e adição de vogais, como em "apeoples" e fala ritmada, vista através do balanço do corpo ou da batida do pé).
Desta forma, o filme trouxe para a mídia uma discussão importante e há muito necessária. A prova de que pouco se conhece sobre o tema está na legenda do filme, que traduziu "speech therapist" como terapeuta da fala, e não como fonoaudiólogo, e nas risadinhas absurdas da platéia ignorante.
Tanto nos dois primeiros exemplos quanto em "O Discurso do Rei", o sotaque funciona como uma fonte de julgamento desfavorável. A cena que mais o evidencia é o teste para o teatro de Lionel Logue, aficionado de Shakespeare, que é descartado como não suficientemente majestoso por interpretar Ricardo III com seu sotaque australiano. No entanto, este é um aspecto secundário do filme, utilizado para reforçar o tema central, a gagueira. A estória é tão concentrada nisto que cenas que seriam priorizadas em outras narrativas, como a coroação, são deixadas de lado. Que informações, então, o filme nos dá sobre a gagueira?
- Gagueira ≠ insanidade (o Duque de York se refere a si como Rei George III, "o Louco"); gagueira ≠ deficiência física (a referência óbvia do filme ao Rei Ricardo III);
- Tudo o que não se deve fazer diante de uma pessoa com gagueira pode ser visto na cena em que o pai do Duque, o rei George V, o obriga a tentar ler um discurso e
- A gagueira não tem cura, mas tem tratamento, cujo objetivo é a "gagueira fluente", como vista no discurso final.
Muito do que é mostrado nas sessões de terapia se aproxima do que é feito nos dias de hoje. São realizados, no filme, testes e exercícios de reabilitação vocal (tempo máximo de fonação, redução de tensões relacionadas à fonação, instauração da respiração abdominal e projeção vocal) e técnicas de terapia da gagueira (fala mascarada, no caso do filme, com Mozart; identificação de situações de maior dificuldade, como conversar com o irmão para o Duque; inícios facilitados por prolongamentos, pausas e adição de vogais, como em "apeoples" e fala ritmada, vista através do balanço do corpo ou da batida do pé).
Desta forma, o filme trouxe para a mídia uma discussão importante e há muito necessária. A prova de que pouco se conhece sobre o tema está na legenda do filme, que traduziu "speech therapist" como terapeuta da fala, e não como fonoaudiólogo, e nas risadinhas absurdas da platéia ignorante.
Um comentário:
Muito bom! :D
Agora preciso rever o filme, não tinha reparado na cena do Logue no teatro.
Postar um comentário